"Qual o assunto que mais lhe interessa ?" , o mais novo CD de Elba Ramalho, mostra em primeiro lugar uma unidade de sonoridade e de espírito com os discos mais significativos e de maior impacto na carreira da cantora. Para quem passeia com tanta facilidade por diferentes ritmos, Elba tem uma obra de enorme continuidade e coerência. Elba não é basicamente uma forrozeira, como Marinês. Não é basicamente uma sambista, como Beth Carvalho; ou uma cantora de “música baiana” como Ivete Sangalo ou Daniela Mercury, uma intérprete de music-hall, de bolero, de frevo ou de baladas românticas como dezenas. Já vestiu todos esses modelos, mas nenhum deles a define como cantora.

"Qual o assunto que mais lhe interessa ?" revela, a partir da faixa-título, uma preocupação em dizer, contar, discutir. Sem a intenção de fazer a cabeça do público ou de propagandear uma ideologia, mas por uma necessidade de falar de assuntos interessantes. Por mais que a obra de Elba seja uma festa permanente, com muito som, muita luz, muito peso e amplificação, muita gente no palco, se tudo isso fosse arrancado não deixaria um vazio: deixaria a medula que move o seu trabalho, e que é a mais nobre missão de um artista, segundo Bob Dylan: “contar histórias e fazer perguntas”.

Elba é porta-voz de compositores que revelou, ou que, mesmo já gravados por outros artistas, tiveram na sua voz as interpretações mais vigorosas e inesquecíveis. Elba não canta apenas “por cantar”, sempre cantou para dizer: para contar histórias, para lembrar lugares, para explicar pessoas, para revelar uma parte da nossa vida de que a gente não tinha conhecimento. Elba é uma das cantoras com quem um letrista sente que não desperdiçou seu tempo.

Um aspecto em Qual o assunto que mais lhe interessa ? remete a um dos discos fundamentais na carreira de Elba, Leão do Norte (1996). Ambos se focam num grupo de compositores que servem para delimitar uma espécie de centro de gravidade da MPB. Esse centro é um núcleo de maior densidade ao qual a gente sempre recorre para não se perder nos labirintos fractais de uma contemporaneidade que nos oferece diariamente novos estilos, novos gêneros, novas tendências, novas tribos, novas tecnologias, novos modelos, novos canais de veiculação, novas receitas salvadoras, novas liberdades obrigatórias.

Em Leão do Norte, Elba havia retornado a esse centro buscando a obra de Lauro Maia, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Caymmi, Jackson do Pandeiro; e conectando a ela a obra de seus contemporâneos Lenine e Chico César. Depois de uma série de discos em que a cantora tinha visitado de passagem variados estilos musicais, Leão do Norte produziu em todos a sensação de que alguma coisa de repente fez contato, de que uma conexão que estava tênue e vagarosa se avivou, e uma corrente de energia, que nunca havia secado por completo, recomeçara a fluir. É uma sensação parecida a que produz Qual o assunto que mais lhe interessa, quando vemos Elba contactar novamente o universo de Gonzaga e Jackson, só que agora através de seus herdeiros Maciel Salu & Jam da Silva e Accioly Neto. Quando essas canções se misturam às de nomes como João Nogueira & Paulo César Pinheiro ou Jorge Ben Jor (que Elba havia interpretado raramente); e quando dialogam com o que poderíamos chamar de “pop-popular” (num paradoxo típico da cultura de masssas) feito por Pedro Osmar & Paulo Ró, por Carlinhos Brown e por Chico César. Para não falar nos contemporâneos Pedro Luís & Ivan Santos, Arnaldo Antunes, Capinam & Roberto Mendes, Lenine e Lula Queiroga, além dos eternos parceiros Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

Um dos assuntos que mais interessam a Elba neste momento é a religião, e o que poderia redundar num leque de canções evangelizadoras tem neste disco um perfil de musicalidade pura. “Anjo” de Ben Jor é uma invocação à Divindade e uma reverência de quem é recebido em terreiro amigo: “Dá licença de cantar nesse lugar...” Uma das mais belas canções do disco é a que é dedicada a Nossa Senhora: “Senhora dos Coqueiros” (Lula Queiroga, Lulu Oliveira e Alexandre Bicudo), que traz o espírito melancólico, devoto e altivo da religiosidade popular do morro recifense.

Esta última música chama a atenção para um dos elemento mais visíveis em Qual o assunto que mais lhe interessa ? : a sonoridade digital resultante da presença do produtor Lula Queiroga e dos seus fiéis escudeiros Yuri e Tostão. Ouvi comentários de que o disco estava “moderno”, “pop” e isto me lembrou o aparecimento de Ave de Prata em 1979. O disco de estréia de Elba foi uma surpresa parcial para os que já a conheciam. Uma parte esperava um disco de forró nordestino, outra esperava um disco de MPB clássica: e os comentários eram de que se tratava de um disco pop. Apesar de gravado precariamente, ainda é para muitos ouvintes de Elba um dos discos prediletos, pelo repertório surpreendente, arranjos originais e sonoridades inesperadas. Este novo CD remete a essa faceta moderna que era um dos elementos mais visíveis em Ave de Prata e que depois retrocedeu para dar lugar a “Elba a forrozeira”, “Elba a cantora de música baiana” e outros carimbos mais nítidos, obrigatórios na alfândega da indústria fonográfica.

Enquanto a indústria fonográfica se recicla e se reconstrói, este disco recupera o que essa indústria sempre teve de melhor – grandes compositores, grandes intérpretes, grandes canções – e põe um pé na música do presente, onde cada qual pode usar a sonoridade que mais lhe convém e falar dos assuntos que mais lhe interessam.